A pergunta que mais me fazem à mesa da cozinha não é quanto vale a casa.

É a que vem logo a seguir, quase sempre em voz mais baixa: e depois, nós vamos para onde?

Há um mal-entendido de base sobre quem vende casa em Oeiras. A maior parte destas pessoas não está a sair do mercado. Está a trocar de casa. Nasceu um filho e o T2 encolheu. Os filhos saíram e o T4 ficou grande de mais para dois. Mudou o emprego, mudou a escola, mudou o casamento.

Não são investidores a realizar uma posição. São famílias no meio de uma mudança de vida, com uma operação financeira complicada em cima. E é a operação mais difícil que existe no imobiliário residencial, porque tem duas pontas e as duas têm de bater certo.

Os dois medos, e nenhum deles é irracional

Quando falo com alguém que vai trocar de casa, o medo aparece sempre de um dos dois lados.

Vender primeiro e ficar sem casa. É o medo mais físico dos dois. Vendo, assino, entrego as chaves, e depois? Vou para casa dos meus pais com dois miúdos e um cão? Alugo seis meses e mudo-me duas vezes? Este medo faz com que muita gente adie pôr a casa à venda durante meses, à espera de encontrar primeiro a casa nova. E nesse tempo o mercado muda.

Comprar primeiro e ficar com duas. É o medo financeiro. Assino a compra, o banco aprova, e a minha casa não vende no tempo que eu contava. Fico a pagar duas prestações, e o dinheiro da entrada já lá está.

Os dois medos são legítimos. O que não é legítimo é a terceira hipótese, que é a que acontece quando não se planeia nada.

Não se perde a casa nem se pagam duas prestações. Aceita-se uma proposta má porque o relógio está a andar.

Esse é o cenário caro. E o dinheiro que se perde aí não volta.

A conta que se faz antes de qualquer decisão

Antes de escolher a ordem das coisas, há uma pergunta a responder, e não é ao consultor que se pergunta. É ao banco ou a um intermediário de crédito: aguento os dois créditos ao mesmo tempo, mesmo que seja durante três meses?

Se a resposta for sim, tem uma liberdade enorme e o resto deste artigo é mais fácil. Se for não, e desde Agosto de 2026 é não para muito mais gente do que era, a operação tem de ser encadeada com cuidado.

45%

A taxa de esforço máxima recomendada pelo Banco de Portugal desceu de 50% para 45% a 1 de Agosto de 2026. A margem de excepções dos bancos desceu de 15% para 10% do crédito concedido. Apertou-se a regra e apertou-se também a porta lateral por onde se passava.

Na prática, quem estava colado ao tecto dos 50% deixou de ter espaço para uma segunda prestação, mesmo temporária. Os próprios bancos estimaram publicamente uma redução da concessão de crédito entre 5% e 10%.

Faça essa conta primeiro. Tudo o resto depende dela.

As três formas de encadear, e o que cada uma custa

Não há uma resposta certa. Há três caminhos, cada um com uma factura diferente.

1. Vender primeiro, comprar depois

A favor: negoceia a venda sem relógio, que é a única forma de negociar bem. Sabe exactamente quanto tem na mão antes de escolher a casa nova, e chega ao vendedor da casa que quer com dinheiro disponível, que é a posição mais forte que existe do lado do comprador.

Contra: o intervalo. Entre a escritura de venda e a de compra pode haver semanas ou meses.

Como se resolve o intervalo, e resolve-se quase sempre: negociando prazos no próprio contrato. Um contrato-promessa pode prever a escritura para daí a três ou quatro meses. Pode prever a permanência do vendedor no imóvel por um período após a escritura, com ou sem contrapartida. São coisas que se combinam entre pessoas, e um comprador que quer aquela casa costuma ser flexível no calendário.

O erro é assumir que vender significa entregar as chaves na semana seguinte. Não significa. Significa aquilo que estiver escrito no contrato.

2. Comprar primeiro, vender depois

A favor: garante a casa nova. Se apareceu aquela casa, a que raramente aparece, e a decisão é entre arriscar ou perdê-la, há situações em que se arrisca.

Contra: precisa de capacidade para dois créditos ou de capital para a entrada sem depender da venda. E, sobretudo, entra na venda da sua casa com pressão. Essa pressão vê-se. Os compradores experientes cheiram um vendedor apressado a dez metros, e o desconto que isso custa é quase sempre superior ao que se ganhou na compra.

3. As duas escrituras no mesmo dia

É a solução mais elegante e é perfeitamente exequível: vende de manhã e compra à tarde, com o produto da venda a financiar directamente a compra.

O que exige: coordenação séria entre dois compradores, dois vendedores, um ou dois bancos e um cartório ou casa pronta. Basta um dos financiamentos atrasar duas semanas e o dominó cai.

Não é magia, é gestão de calendário. Marcam-se as datas com folga, alinham-se as aprovações de crédito antes de fixar seja o que for, e mantém-se um plano B escrito para o caso de uma das pontas escorregar. Quando corre bem, e corre bem com frequência, o cliente muda de casa num dia e nunca teve dois créditos nem uma noite fora.

A cláusula que quase ninguém explica

Esta é a parte técnica que faz a diferença e que raramente aparece nas conversas sobre trocar de casa.

Um contrato-promessa de compra e venda pode incluir uma condição suspensiva. Em português corrente: o contrato só produz efeitos se determinada coisa acontecer até determinada data.

As duas mais úteis nesta operação:

Na compra. Comprometo-me a comprar a sua casa, com a condição de obter financiamento aprovado até dia X. Se o banco recusar, o contrato cai e o sinal é devolvido. Protege quem compra sem ter ainda a certeza do crédito.

Na venda. Vendo a minha casa, com a condição de conseguir concretizar a compra da casa nova até dia X. Se não conseguir, o negócio não avança.

A segunda é mais difícil de fazer aceitar, porque coloca o risco do lado do comprador, e por isso não se põe em cima da mesa sem contrapartida nem sem explicação. Mas existe, é legal, é usada, e a diferença entre saber que existe e não saber pode ser a diferença entre uma mudança tranquila e três meses de ansiedade.

Uma nota importante: uma condição suspensiva mal redigida é pior do que nenhuma, porque cria a ilusão de protecção. Isto escreve-se com advogado ou solicitador, sempre, e com datas concretas e verificáveis.

Os custos que aparecem a meio e que ninguém contava

Há três que apanham quase toda a gente de surpresa nesta operação.

A comissão de reembolso antecipado. Quando vende com crédito em curso, o capital em dívida é liquidado na escritura, e isso é um reembolso antecipado. Entre 2023 e 2025 houve uma isenção temporária para contratos de taxa variável, e muita gente ainda vive com essa ideia.

0,5%

A isenção terminou a 31 de Dezembro de 2025. Desde 1 de Janeiro de 2026 os bancos voltaram a cobrar: em regra 0,5% do capital amortizado nos contratos de taxa variável e 2% nos de taxa fixa. Num capital em dívida de 120.000 euros, são 600 euros a taxa variável e 2.400 euros a taxa fixa.

O cancelamento da hipoteca. O distrate, que é a declaração do banco de que a dívida está liquidada, não tem custo. O registo do cancelamento tem, e anda na ordem dos 50 euros.

O tempo, que é o custo mais caro de todos. Nas freguesias de Oeiras, o tempo médio entre pôr à venda e escriturar anda nos três a quatro meses. Porto Salvo é o mercado mais rápido do concelho, com uma média de três meses. Carnaxide anda nos quatro.

Mas isso são médias de todo o mercado. Por escalão de preço a história muda muito, e em Carnaxide os imóveis entre 700 e 800 mil euros passam, em média, os treze meses. Quem planeia uma troca de casa contando com dois meses de venda está a planear com o número errado.

A boa notícia: o fisco dá-lhe mais tempo do que julga

Esta é a parte que costuma aliviar a conversa, e que muita gente desconhece.

Se está a vender a casa onde vive para comprar outra onde vá viver, a mais-valia pode ficar isenta de IRS por reinvestimento. E os prazos são generosos.

Prazos de reinvestimento em habitação própria e permanenteArtigo 10.º do Código do IRS · Portal das Finanças
CondiçãoPrazo ou requisito
Reinvestir antes de venderaté 24 meses antes
Reinvestir depois de venderaté 36 meses depois
Habitação própria e permanente do imóvel vendidomínimo 12 meses antes da venda
Afectação da casa nova a habitação própria12 meses após o prazo de reinvestimento
Declaração da intenção de reinvestirAnexo G do IRS do ano da venda

Três pontos que decidem se a isenção se aplica mesmo, e que vale a pena confirmar com um contabilista antes de contar com ela.

O imóvel vendido tem de ter sido a sua habitação própria e permanente, e a exigência actual é de pelo menos 12 meses antes da venda.

O que tem de ser reinvestido não é o preço de venda inteiro. É o valor de realização deduzido do capital que amortizou do crédito associado ao imóvel vendido. É uma diferença enorme, e é onde a maioria das pessoas se engana a fazer contas de cabeça.

O reinvestimento tem de ser feito sem recurso a crédito na parte que conta para a isenção, e a intenção declara-se no Anexo G. Quem se esquece de declarar perde o benefício mesmo tendo reinvestido.

Para quem tem 65 anos ou mais, ou está reformado, há uma via alternativa: aplicar o valor em produtos financeiros que assegurem prestações regulares, no prazo de 6 meses.

Três anos de prazo mudam a conversa. Ninguém tem de comprar em três semanas por causa de impostos.

O que eu faria, se fosse a minha casa

Primeiro, a conta do banco. Antes de ver uma única casa, saber quanto o banco aprova nas regras de hoje e se aguenta ou não duas prestações em simultâneo. Sem este número, tudo o resto é conversa.

Segundo, o valor real da minha casa. Não o dos anúncios da rua, que é outra coisa. Na zona de Oeiras centro, a distância entre o que se pede nos anúncios e o que se paga nas escrituras chega aos 15,7%, a maior do concelho. Quem monta o plano de troca com o preço dos anúncios monta-o com 15% de erro logo na primeira linha.

Terceiro, pôr à venda antes de me apaixonar por alguma coisa. Este é o conselho que mais custa a aceitar e o que mais dinheiro poupa. Quem já se apaixonou pela casa nova negoceia mal a antiga, sempre.

Quarto, escrever o calendário e as condições no contrato. Prazos de escritura, permanência no imóvel, condições suspensivas. Tudo o que estiver escrito é protecção. Tudo o que ficar combinado de boca é esperança.

Uma última coisa

Trocar de casa é das operações mais stressantes que uma família faz, e o stress não vem do dinheiro. Vem da incerteza. De não saber onde se vai estar em Outubro, de ter os miúdos a perguntar se mudam de escola.

Quase toda essa incerteza se resolve com planeamento e com contratos bem feitos. Não se resolve com sorte.

Se quiser perceber melhor o mercado de cada freguesia antes de decidir, escrevi o concelho freguesia a freguesia com dados de escritura. E se a dúvida for do lado da compra, o que mudou no crédito em 2026 responde à outra metade da pergunta.

De onde vêm estes números

Regras de crédito. Recomendação macroprudencial do Banco de Portugal anunciada a 2 de Julho de 2026 e em vigor desde 1 de Agosto de 2026: taxa de esforço máxima de 45% e margem de excepções de 10%. Estimativas de impacto na concessão de crédito avançadas pelos próprios bancos. bportugal.pt

Comissão de reembolso antecipado. Fim da isenção temporária a 31 de Dezembro de 2025. Comissões de 0,5% em taxa variável e 2% em taxa fixa desde 1 de Janeiro de 2026.

Custos de cancelamento de hipoteca e documentação. Caixa Geral de Depósitos, Saldo Positivo, e serviços de registo.

Mais-valias e reinvestimento. Artigo 10.º do Código do IRS e informação do Portal das Finanças. portaldasfinancas.gov.pt

Tempos médios de venda e diferença entre preço pedido e escriturado em Oeiras. RIL e Micro-SIR, Confidencial Imobiliário. © IMOESTATÍSTICA, todos os direitos reservados.

Aviso

Este artigo é informativo e não substitui aconselhamento jurídico ou fiscal. Contratos-promessa com condições suspensivas devem ser redigidos por advogado ou solicitador, e o enquadramento fiscal de cada caso deve ser confirmado com um contabilista certificado.

Leandro Martins
Consultor Imobiliário · KW Exclusive · AMI 21960

Se está a pensar trocar de casa em Oeiras, o primeiro passo custa-lhe uma conversa e nada mais: saber quanto vale a sua casa com dados de escritura, não com preços de anúncio, e desenhar o calendário das duas pontas antes de mexer em alguma.

Faço essa análise sem compromisso. Se depois quiser fazer sozinho, fica com o plano na mesma.

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