Este ano, na mesma rua em Oeiras, aconteceram duas coisas que ainda hoje uso para explicar o mercado a quem me pergunta quanto vale a sua casa.

Dois rés-do-chão. Dois T2. Prédios praticamente iguais, a poucos metros um do outro.

O primeiro pedia 677 mil euros. Encontrou comprador em 54 dias.

O segundo pedia 625 mil, ou seja, 52 mil euros a menos. Esteve dez meses no mercado e saiu sem vender.

O mais barato não vendeu. O mais caro vendeu em menos de dois meses. Se houvesse uma frase para resumir o que se passa em Oeiras neste momento, era esta.

Então quanto vale?

Vamos aos números, que é para isso que aqui estamos.

4.802 €/m²

Foi este o preço médio a que a habitação em Oeiras foi transacionada no primeiro trimestre de 2026. Não é o que se pede nos portais. É o que ficou escrito nas escrituras.

A média nacional, no segundo trimestre, ficou nos 3.263 euros. A da Área Metropolitana de Lisboa, nos 4.026. Oeiras está quase 50% acima do país e é, pelos dados do INE, o terceiro município mais caro de Portugal, atrás apenas de Lisboa e de Cascais.

E ainda por cima continua a subir. No espaço de um ano o concelho valorizou 17,4%, praticamente o mesmo que o país inteiro. Num mercado que já era caro, isto é o dado que mais me impressionou neste trimestre.

O mapa da região

Preço médio de transação por concelho · 1.º trim. 2026Fonte: SIR / Confidencial Imobiliário · © IMOESTATÍSTICA, todos os direitos reservados
Concelho€/m²
Lisboa5.889 €
Cascais5.214 €
Oeiras4.802 €
Média AM Lisboa4.041 €
Loures3.612 €
Amadora3.574 €
Almada3.502 €
Odivelas3.470 €
Sintra3.330 €
Barreiro3.092 €
Seixal3.066 €
Montijo2.877 €
Moita2.814 €
Alcochete2.424 €

Esta escada é estável há anos e não surpreende ninguém que trabalhe na região. O que anda depressa é outra coisa.

No último ano, a Moita valorizou 35,6%. Sintra, 28,3%. A Amadora, 23,4%. Lisboa ficou-se pelos 14,8% e Cascais pelos 16,1%.

Reparou? Os concelhos mais caros são os que sobem mais devagar. Toda a energia está na periferia.

É por isso que se pode olhar para a tabela acima, ver Alcochete no fundo, e ao mesmo tempo passar por lá e ter a sensação de que aquilo está a crescer a olhos vistos. As duas coisas são verdade. Uma tabela de preços diz onde se está; não diz a que velocidade se anda.

"Oeiras" não existe

Esta é a parte que costuma surpreender os proprietários.

Entre a freguesia mais cara e a mais acessível do concelho há cerca de 35% de diferença. Não é detalhe, é outro mercado.

Preço médio por freguesia de Oeiras · janela 12 mesesMicro-SIR, Confidencial Imobiliário, 12 meses até Abril de 2026 · © IMOESTATÍSTICA, todos os direitos reservados
Freguesia€/m² médio
Caxias5.702 €
Algés5.329 €
Paço de Arcos5.227 €
Oeiras e São Julião da Barra5.128 €
Cruz Quebrada-Dafundo5.103 €
Queijas4.734 €
Carnaxide4.523 €
Porto Salvo4.360 €
Linda-a-Velha4.328 €
Barcarena4.233 €

Faça a conta comigo. Um T3 de 120 metros, avaliado pela média do concelho, dá 576 mil euros. O mesmo T3 em Caxias dá 684 mil. Em Barcarena, 508 mil.

176.000 €

É a diferença no mesmo apartamento imaginário, só porque mudou de morada dentro de Oeiras.

E dentro de cada freguesia a história repete-se. Um último andar com terraço e um rés-do-chão sem garagem, no mesmo prédio, não valem o mesmo por metro. Nem perto. Já vi diferenças de 20% entre frações do mesmo edifício, e não estou a exagerar.

Não é que as médias não sirvam para nada. Servem para saber em que patamar se anda. Só não servem para avaliar uma casa, que é para o que quase toda a gente as usa.

Porque é que os anúncios enganam

Chego à parte que mais custa explicar, e que é a mais útil de todas.

Se somarmos tudo o que está à venda em Portugal e compararmos com tudo o que se vendeu, quem pede está a pedir 8,3% acima do que os compradores estão a pagar. Na Área Metropolitana de Lisboa a diferença sobe para 9,8%. Em Lisboa cidade chega aos 14,4%.

Isto não quer dizer que cada vendedor vá dar 8% de desconto. Quer dizer outra coisa, e mais interessante.

As casas que estão bem de preço vendem-se e saem do mercado. As que estão caras ficam. Ao fim de alguns meses, aquilo que está à venda é, cada vez mais, o conjunto do que já ninguém quis ao preço pedido.

Os anúncios não mostram o mercado.
Mostram o que sobrou dele.

Foi exactamente o que se passou naquela rua. O de 677 mil vendeu-se e desapareceu da montra. O de 625 mil ficou lá dez meses, a engrossar a média dos que pedem e nunca a dos que recebem.

Uma nota mais animadora: esta diferença é a mais baixa desde 2020, nunca os compradores pagaram tão perto do que se pede. Só que isso tem um reverso. Se a margem encolheu, deixou de haver espaço para esconder um preço mal posto. Há uns anos, quem entrava 15% acima ia negociando e lá chegava. Hoje o anúncio limita-se a envelhecer.

O tempo médio de venda na região é de cinco meses. E digo-lhe com franqueza o que aprendi a ver: passados esses cinco meses, o problema quase nunca é a procura.

O ano começou mal e endireitou-se

Vale a pena registar, porque muita gente ficou com a ideia contrária.

No primeiro trimestre as vendas caíram 12,1% em Portugal. Foi um arranque de ano mau, e ainda hoje encontro proprietários convencidos de que o mercado está parado por causa disso.

No segundo trimestre inverteu. Venderam-se 39.210 casas no país, mais 7,0%, e a Área Metropolitana de Lisboa acompanhou exactamente o mesmo ritmo, com 11.790 transacções.

Quem tem casa no mercado agora tem mais procura à frente do que tinha em Janeiro. E os bancos confirmam: a avaliação bancária mediana bateu recorde em Junho, nos 2.228 euros por metro quadrado a nível nacional, com os apartamentos da Grande Lisboa avaliados a 3.411.

O que vem a caminho de Oeiras

Só no primeiro semestre entraram em licenciamento 620 novos fogos no concelho, mais 46% do que o ritmo do ano passado. A habitação nova em Oeiras já escritura acima dos 6.000 euros por metro quadrado.

Sejamos honestos: uma parte destes projectos nunca sai do papel, e os que saem demoram. Mas a parte que avançar chega ao mercado entre 2027 e 2028, com garantia e certificado energético A, a competir com o usado bem localizado.

Não é urgência inventada, é calendário. Quem vender este ano tem menos concorrência do que terá daqui a dois. Não faço disto um argumento para ninguém se despachar; faço disto uma informação que acho que os proprietários têm o direito de ter.

O que eu faria, no seu lugar

Não avaliava a minha casa pelo anúncio do vizinho. O que ele pede é a expectativa dele, e a expectativa não é um preço. Só a escritura é.

E não avaliava pela média do concelho, nem sequer pela da freguesia. Servem para enquadrar, não para decidir.

Depois disso, é simples de dizer e difícil de fazer: o preço de entrada decide tudo o resto. Os dois rés-do-chão daquela rua tinham o mesmo mercado à frente, a mesma procura, os mesmos compradores a passar. Um estava calibrado, o outro não. Um vendeu em 54 dias, o outro somou dez meses de montra e foi para casa.

E se não está a pensar vender, o número continua a interessar-lhe. É o seu património. Serve para decidir sobre crédito, sobre arrendamento, sobre partilhas, sobre a vida.

De onde vêm estes números

Não trabalho com estimativas de portal. Trabalho com transacções registadas, e faço questão de dizer sempre de onde vem cada número.

Preços de transacção, valorizações e tempos de venda. Confidencial Imobiliário, através do SIR (Sistema de Informação Residencial) e do Micro-SIR. O SIR agrega a informação de quase todas as principais redes de mediação e promotores a operar em Portugal. O Micro-SIR georreferencia essas transacções ao código-postal de sete dígitos. Dados do 1.º e 2.º trimestres de 2026. © IMOESTATÍSTICA, todos os direitos reservados.

Indicadores de absorção e negociação por freguesia. RIL, Relatório Imobiliário Local, da mesma casa. É daqui que saem os tempos médios de venda e a distância entre o que se pede e o que se paga, apurados freguesia a freguesia.

Construção nova e licenciamento. Pipeline Imobiliário, apurado por via dos pré-certificados energéticos emitidos pela ADENE.

Avaliação bancária, índice de preços e ranking de municípios. INE, Instituto Nacional de Estatística. ine.pt

Crédito, taxas de juro e prestações. Banco de Portugal. bportugal.pt

Preços de anúncio, quando são citados como tal, vêm do Idealista. Nunca os misturo com valores de escritura sem o dizer.

Base de cálculo em Oeiras

Os valores por freguesia neste artigo assentam num apuramento próprio sobre 1.959 transacções reais no concelho de Oeiras, numa janela de doze meses, com cálculo autónomo para cada uma das dez freguesias. A precisão técnica situa-se em torno dos ±7% ao nível do concelho, alargando nas freguesias com amostra menor, como Barcarena.

O que estes números não são

Nenhum deles avalia uma casa em concreto. São médias, e uma média não tem andar, não tem exposição solar, não tem estado de conservação nem garagem. Duas frações do mesmo prédio podem afastar-se 20% uma da outra sem que nenhuma média o registe.

São de períodos diferentes. Os valores por freguesia têm janela de doze meses até Abril; os valores por concelho são do primeiro trimestre; os indicadores nacionais são do segundo. Somar períodos diferentes é o erro mais comum nesta área.

É por isso que uma avaliação a sério não se faz por formulário. Faz-se com estes dados como chão e com o imóvel à frente.

Leandro Martins
Consultor Imobiliário · KW Exclusive · AMI 21960

Faço, uma vez por trimestre, uma análise mais completa do mercado de Oeiras. Não a publico. Envio-a a proprietários do concelho.

Se quiser recebê-la, diga-me e junto-o à lista. Sem compromisso e sem seguimento comercial.

© IMOESTATÍSTICA · Todos os direitos reservados · Fonte: SIR / Micro-SIR / RIL, Confidencial Imobiliário